Mau Humor é Doença?

Carlos T. Grzybowski

No clássico conto infantil “Branca de Neve e os Sete Anões”, as crianças (porque não dizer os adultos também) identificam-se com os anões que são, no fundo, representações de estados de ânimo ou de estados de humor infantil. Assim que temos o Feliz, o Dengoso, o Soneca, o Atchim (que representa os estados de enfermidade), o Mestre (que representa a liderança), o Dunga (que representa a inocência) e também o ZANGADO. Este último representa o mau humor. Parece que todos eles são variações de nossos humores e/ou disposições interiores.

E o que contribui para a variação de nossos humores? Muitas coisas. A primeira delas é nosso estado geral de saúde física.

Uma alimentação saudável, uma vida temperada entre o trabalho e o lazer, um respeito às condições de sono-vigília do organismo, podem contribuir em muito para nos tornarmos pessoas bem dispostas, bem-humoradas. Infelizmente são poucos os que observam estes detalhes e, na maioria das vezes, tratamos nosso bem-estar físico como algo secundário.

É impressionante o número crescente de pessoas – homens e mulheres – que levam uma vida sedentária, passando horas a fio sentados diante de uma escrivaninha durante o expediente de trabalho e, quando saem no final do dia, vão para casa e SENTAM novamente diante de um emburrecedor aparelho de televisão – “para descansar”. na verdade o que estas pessoas querem é descansar a mente e não o corpo, visto que o corpo ficou inativo durante quase todo o dia. Descansar a mente não é sinônimo de sentar-se em frente ao aparelho de TV e acriteriosamente “engolir” tudo que ali é oferecido.

Muito pelo contrário. Pessoas assim deveriam procurar ocupar-se de atividades físicas significativas, que ajudassem o corpo a não entrar em um estado de letargia. Não fazendo atividades exageradamente desgastantes como as aeróbicas e malhações sem fim das academias de fisicultura, pois isto é mais uma “obsessão” de nossos dias do culto ao corpo, mas tendo atividades físicas equilibradas, que coloquem os músculos em movimento e resgatem a disposição física. Uma boa natação duas vezes na semana ou uma caminhada relaxada no parque são muito recomendáveis.

Outra questão importante é a alimentação. A quantidade de alimentos danosos para o organismo ingeridos pelas pessoas diariamente é impressionante. Não sou partidário de um regime alimentar absolutista, quer qual seja sua expressão (vegetariano, macrobiótico, ecológico, etc…). O que realmente importa é o equilíbrio na quantidade e na qualidade dos alimentos. Se você comer só um tipo de alimento, com certeza seu organismo ficará com déficits de certos sais minerais, proteínas ou carbohidratos dos alimentos que você não consome. Estudos mostram que certos alimentos podem ser preventivos para doenças como depressão, senilidade e outras. A serotonina, por exemplo, muito presente na banana, é elemento essencial para combater o mau-humor e a depressão. Por isso – afirmam alguns – os macacos estão sempre bem dispostos…

Também é importante ter horário e ritmo para a alimentação. Disciplinar o corpo a ter um horário definido para as refeições e comer pausadamente são importantes. Nada mais prejudicial que um “fast-food” todos os dias. É preciso tempo para uma boa mastigação e para a digestão, senão os estômago começa a criar “dentes”. Não é por menos que nos tempos bíblicos se gastava muito tempo com as refeições e o jejum tinha também o significado de separar este tempo para Deus.

A incapacidade de desenvolver atividades de lazer criativas são outro ingrediente que acentua um estado de humor negativo. Nada mais limitante que passar todo um final de semana sentado na frente do aparelho de televisão. Especialmente pela qualidade tão baixa dos programas de TV aberta nos finais de semana. Não que seja errado assistir a um bom filme ou uma entrevista interessante, ou ainda uma partida de futebol significativa, porém virar um “videota” passando aleatóriamente os canais do controle remoto e absorvendo tudo que vem pela frente é atitude pouco coerente com um ser que se denomina “inteligente”.

Existem muitas opções de lazer, mesmo para aqueles que não dispõe de muitos recursos financeiros. Caminhar em um parque, brincar em um rio de pedras que corre da montanhas, ver uma exposição interessante, conhecer um museu, jogar com o filho pré-adolescente, enfim, existem atividades para todos os gostos e idades, basta um pouco de criatividade para desenvolver as que mais lhe agradam e ter um humor melhorado para a semana que inicia.

Finalmente existem aqueles que acham que são o protótipo do Robocop. Estão na ativa 24 horas por dia, sem necessitar de descanso ou sono. Dormem pouco (4 a 6 horas por noite) e dormem mal. Certamente o estado de humor vai se deteriorando: as pessoas vão ficando irritadiças, os níveis de atenção diminuem, a tolerância também diminui, em resumo – o mau humor cresce.

Todavia, além destes fatores que contribuem para o aumento de mau humor, existem aquelas pessoas que parecem que estão constantemente mal-humoradas. Como citou certa vez o Rev. Caio Fábio, são o “anti-molico existencial”, pois estão sempre de mal com a vida (parodiando a propaganda do leite em pó que dizia deixar as pessoas de bem com a vida).

Além dos fatores supra-mencionados, tais pessoas carecem de um sentido mais profundo para a vida. Em geral são pessoas amarguradas com o mundo porque não descobriram no mesmo uma razão existencial que as impulsione para a vida.

Muitas ficam presas a experiências relacionais frustradas do passado, onde sofreram alguma desilusão grande em um relacionamento que confiavam ou sentiram-se traídas (algumas o foram efetivamente). Passam a vida circulando em torno desses sentimentos de amargura e esquecem de desfrutar daquilo que a vida oferece de belo e saudável. São pessoas amargas que não entenderam o significado último do perdão e que amargam a vida das pessoas com quem convivem.

Algumas dessas pessoa estão nas igrejas e dizem-se perdoadas por Deus, embora seja difícil de acreditar, pois elas mesmas ainda não entenderam o significado da palavra perdão. São pessoas que, em primeiro lugar, necessitam de uma profunda experiência de conversão, de sentir-se perdoadas e assim demonstrarem disponibilidade de também perdoar. Deixar-se serem amadas para também amarem e, através do amor incondicional, obterem um sentido mais profundo para a própria existência.

Lembro da experiência de Saul, que deixou seus ressentimentos irem crescendo e tornou-se pessoa tão amarga, com rompantes de violência, que as pessoas queriam distancia dele – as mesmas pessoas que o alcamaram como líder e rei. Além de tudo teve ainda que amargar uma solidão, decorrente de seu contínuo mau humor.

Se você tem trilhado por caminhos de amargura ressentimento que o tem isolado dos demais, veja que pode estar tornando-se um mal-humorado crônico. Reverta logo esse quadro. Algumas orientações úteis que lhe poderão ajudar a sair deste estado:

  1. Busque em Deus e no sacrifício expiatório de Jesus Cristo um sentido maior para a existência humana, e nos evangelhos a proclamação do amor incondicional como norma de conduta promotora de saúde integral.
  2. Procure perdoar as pessoas e/ou situações que lhe prendem a estados de amargura e ressentimento. Se você tem dificuldades de fazer isto sozinho, busque um conselheiro cristão experiente ou ainda um psicólogo cristão para lhe ajudar.
  3. Desenvolva um estilo de vida salutar, seguindo algumas das orientações oferecidas no início deste artigo.
  4. Procure um grupo de apoio onde você possa desenvolver relacionamentos saudáveis e aprender, com pessoas experientes, pequenas coisas que dão significado para a vida. Grupos de auto-ajuda são um bom caminho. EIRENE do Brasil desenvolve um workshop denominado “Grupos de Crescimento Integral”, que podem lhe ajudar a montar um grupo assim em sua igreja local.
  5. Aprenda a ser grato! O exercício da gratidão em todas os momentos da vida é um antídoto essencial contra o mau humor!

Que sejamos pessoas alegres que resplandeçam a alegria da vida em Cristo Jesus, capacitados pelo Espírito Santo a, com sabedoria e disciplina, vencermos os estados de humor negativos que nos abatem.

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