Considerações sobre Drogas, Adolecência & Família

Nos últimos 30 anos, muito se tem investigado a respeito dos motivos e razões que levam os adolescentes ao uso e abuso de drogas ilícitas e álcool. O fenômeno tornou-se mais evidente especialmente depois da revolução contra-cultural hippie, e conseqüentemente despertou maior interesse como objeto de pesquisa dos cientistas sociais.

A maioria das pesquisas sociais realizadas aponta para uma compreensão multifatorial do fenômeno (Gutierres, Molof & Ungerleider, 1994; Humes & Humphrey, 1994; Monteiro, 1990). Segundo Yaría (1995),

devem existir três possibilidades que, em alguns casos complementam-se e, em outros funcionam independentemente. Essas três possibilidades correspondem a três séries diferentes: a personalidade, o núcleo familiar continente e o meio social que leva ao vício. (Yaría, 1995, p.21).

Todavia outros pesquisadores apontam para alguns fatores da bioquímica orgânica como sendo variáveis significativas para o surgimento da conduta.

Pesquisas recentes sugerem que vários sistemas cerebrais distintos, cada qual com sua química própria, podem estar ao fundo dos efeitos reforçadores das diferentes drogas. Mais fascinante é a observação de que o que seja ou não reforçador depende da história do animal e das condições do ambiente. (Jaffe, Peterson & Hodgson, 1981, p. 14)

É entre os adolescentes que as drogas proliferam mais. Os adolescentes que se utilizam ou que já se utilizaram de drogas ilícitas, por um período de suas vidas, serão denominados neste trabalho de usuários, independentemente se tal uso gerou dependência física ou psíquica, ou não.

Dentre os muitos fatores que se tem pesquisado, a influência do relacionamento familiar é um dos mais mencionados (Denton & Kampfe, 1994; Zemmel, 1980). Para Gameiro (1993) é difícil de se estabelecer uma relação entre um modelo específico de família e o uso de drogas pelo adolescente. Todavia ele encontrou nas famílias de usuários, uma taxa de separações/divórcios superior à população em geral. Hoffmann (1994), pesquisando especificamente o uso da maconha, chama a atenção para o fato que a estrutura familiar pode não interferir diretamente no uso de drogas pelo adolescente, mas que a diferentes estruturas correspondem diferentes processos relacionais dentro das famílias e estes processos, sim, podem ter efeitos diretos sobre o uso de drogas na adolescência. Além disto ele conclui que há diversos efeitos das relações familiares em diferentes idades ou etapas da adolescência.

Brody e Forehand (1993), pesquisaram a relação entre a qualidade do relacionamento entre o casal e o uso de substâncias e vínculo com grupos de iguais pelos adolescentes. Segundo estes autores, o processo familiar e não o divórcio per si é o principal responsável pelo uso de drogas pelos adolescentes e concluem que apesar de encontrarem que os conflitos entre os pais não estão relacionados diretamente com o uso de drogas pelos filhos, sugerem que se façam pesquisas específicas nesta área.

Os resultados das análises de Buehler, Krishnakumar, Stone, Anthony, Pemberton e Gerard (1998) proporcionam suporte empírico para a idéia que um estilo de conflito interparental hostil está associado a problemas de comportamento nos adolescentes, incluindo nestes problemas o uso de drogas.

De igual forma, Nurco e Lerner (1996) afirmam que

duas notáveis lacunas na literatura sobre fatores familiares que contribuem à dependência narcótica, referem-se à qualidade dos cuidados parentais (como indicado pela freqüência da presença dos pais no lar ou figuras paternas), e a qualidade da atmosfera do lar (morna/fria, estruturada/desestruturada, estável/instável, e outras dimensões deste fator) (*).

Nurco et al., (1996), encontraram uma menor vulnerabilidade para o uso de drogas em adolescentes que viviam em famílias onde quatro características estavam presentes: forte apego ao pai, uma atmosfera positiva no lar, forte aceitação paterna de crenças tradicionais sobre bom comportamento para adolescentes e forte desaprovação paterna de maus comportamentos específicos em que os sujeitos adolescentes (hipoteticamente) se envolveriam.

Os padrões de comunicação familiar também foram alvo de estudo na relação com o uso ou não de drogas pelos adolescentes. Skinner e Slater (1995) concluíram que adolescentes rebeldes provindos de famílias orientadas para o conformismo, avaliam as mensagens antidrogas oriundas dos pais como pouco confiáveis.

Já Van Schoor e Beach (1993) consideram o uso de drogas pelos adolescentes como uma tentativa mal adaptada de solução do processo de separação da família de origem pelo adolescente.

Denton et al. (1994), realizaram uma extensa revisão de literatura sobre os trabalhos que abordam as variáveis familiares e o uso de drogas por adolescentes, e concluíram que há uma forte relação entre estes aspectos. Com base nestas conclusões, recomendam os profissionais a considerarem tais estudos em seus programas preventivos.

Conforme Silva e Formigoni (1999), é importante avaliar-se o funcionamento familiar dos usuários de drogas, pois além de auxiliar nos dados do diagnóstico clínico e no planejamento de um possível tratamento, pode-se dimensionar o grau de influência da família na manutenção ou não do comportamento de uso de drogas.

Adrados (1995) afirma que a literatura americana aponta como principais fatores ligados a drogadição, os seguintes: uma pobre qualidade do vínculo pais-filhos e problemas comprometendo vínculo familiar trazidos por alta intensidade de stress; o grau de abertura no relacionamento dos jovens com seus pais e a intensidade de busca de interação; reações ao controle parental. Ainda a idade de início, freqüência de uso, estilo de monitoramento dos pais e uso por parte dos pais e irmãos são citados como estágios no uso de drogas. A influência dos pares – indivíduos que formam o grupo social no qual o adolescente está incluído – varia de acordo com o estágio em que se encontra o uso de drogas pelo adolescente, mas a percepção do uso pelos pares e as atitudes de tolerância por parte destes são destacados fatores presdiponentes. Segundo o autor o uso de substancia por pares iguais, associado com a deficiente comunicação entre pais e filhos a respeito de drogas é o fator de influência primária para o uso de drogas.

Grzybowski (1988), afirma que o uso de substâncias pelo adolescente ocorre em um momento no qual o vínculo conjugal dos pais se fragiliza com a presença de um terceiro elemento concorrendo com o relacionamento, ao qual denomina de “A PREFERIDA”, que ameaça a continuidade da própria relação entre os pais.

Sudbrack e Costa (1995), afirmam que o problema de drogadição do adolescente refere-se a um sintoma que adquire significado no contexto das interações familiares.

Desta perspectiva, falar de patologias individuais parece não ser suficiente quando se aborda o tema do uso de drogas, pois a forma de encarar uma patologia do ponto de vista de uma pessoa é diferente da forma de vê-la, do ponto de vista de um sistema familiar. Catarino (1995) observando alguns pacientes identificados como “o doente” ou “o frágil” quando entram em contato com o grupo familiar, constatou que este paciente é aquele elemento que, quando a família está sob fortes tensões, entra em cena e devolve o equilíbrio à família.

Sudbrack e Doneda (1992) entendem o uso de drogas pelo adolescente como resultado de um processo de redefinição das relações familiares com o adolescente buscando sua autonomia e os pais inaptos para vivenciarem esta separação do filho. Segundo as autoras:

é preciso que o paciente saia da posição de ‘drogado’, ‘incapaz’, ‘irresponsável’, ‘criança’, ‘dependente’, para ser reconhecido enquanto membro da família que denuncia a necessidade de mudança e expressa sofrimento coletivo (p. 473).

Reafirmando esta idéia, Geberowickz (1992) diz que

o objetivo de todo sistema familiar é o de evoluir seguindo o seu ciclo vital (nascimento, casamento, aposentadoria e morte), renovando-se. Toda mudança desta ordem pode provocar uma crise, colocando-se em perigo a homeostase do sistema. Esta, nas famílias de transações patológicas, é assegurada pela função do paciente identificado, portador do sintoma (uso de drogas) que leva a família a consultar-se. Porém esse equilíbrio é obtido a preço dos sofrimentos individuais e coletivos. (Geberowickz, 1992, p. 3).

Também Anderson et al. (1994), afirmam que o uso de substâncias por adolescentes cumpre esta função para suas famílias. Especificamente os jovens estabilizam a família atraindo o foco para o uso da substância e livrando de focalizar em outros problemas familiares como, por exemplo, conflitos conjugais. Neste sentido Angel (1988), afirma que “o drogadito personifica este ausente-presente necessário para o casal encobrir os seus conflitos e garantir a homeostase familiar” (p.20)

Brasiliano (1992) afirma que a experiência clínica tem salientado que dificilmente é possível sustentar a melhora de um paciente sem que atuemos com sua família e vice-versa, e que a recuperação do dependente vai exigir da família a reestruturação de papéis e a elaboração dos conflitos, ou seja, será necessário desfazer o sistema baseado no paciente identificado e inaugurar um novo tipo de inter-relacionamento.

Desta forma conclui-se que, as pesquisas sobre dependência de drogas indicam que há uma multivariedade de fatores predisponentes, entretanto a quase totalidade das mesmas inclui algum fator familiar. Nota-se que as pesquisas mais recentes, que se baseiam no entendimento da família como sistema, atentam para os elementos de relacionamento familiar com destaque mais especificamente os relacionamentos conflitivos, desfocando um pouco a atenção dos fatores estruturais e das influências dos pares.

Efetivamente pouco se tem pesquisado sobre a relação entre as construções das relações familiares, o clima desenvolvido no lar e como esse fator poderia levar o adolescente a buscar na droga uma forma de manter a “família unida” em torno de um problema e simultaneamente ocultar outro: a fragilidade das relações familiares, em especial as conjugais!

Carlos T. Grzbowski é psicólogo, com especialização em terapia familiar sistêmica e mestrado em psicologia da infância e da adolescência

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*Tradução feita pelo autor deste trabalho – as traduções não especificadas na bibliografia seguem este padrão.

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