Aconselhamento Pastoral e Terapia Breve

Carlos “Catito” Grzybowsk

A psicoterapia breve surge no contexto da ciência, como uma resposta à demanda cada vez maior de soluções eficazes para o dilema humano. Também surge como uma contra-resposta aos delongados processos psicanalíticos desenvolvidos por Freud e seus seguidores no início do século XX.

A primeira e principal ênfase da psicoterapia breve é a de responder à queixa inicial trazida pelo paciente, de forma objetiva e direta.

Quando alguém em sofrimento emocional chega até nós, em geral vem apresentando um sintoma: uma depressão, uma dependência química ou mesmo uma angústia subjetiva. A psicoterapia breve NÃO tenta simplesmente eliminar o sintoma, mas entender quais são os elementos atuais geradores e mantenedores do sintoma e então fortalecer o indivíduo para que este trabalhe na eliminação destes elementos mantenedores.

Desta forma necessitamos, sim, conhecer todo o histórico da evolução do sintoma e como este se apresenta no momento, para que possamos elaborar um “diagnóstico” preciso da situação. Todavia não nos prendemos a trabalhar com os fatos históricos e por mais relevantes que eles possam ter sido na história do indivíduo, HOJE eles são somente o que o nome aponta: FATOS HISTÓRICOS.

Podemos nos perguntar então duas coisas: qual a importância de sabermos os detalhes da história do sintoma e; o que se constitui a verdadeira queixa do indivíduo?

A resposta para a primeira questão é muito importante. Necessitamos conhecer bem a história do sintoma para abstrairmos da mesma os PADRÕES REPETITIVOS de manutenção do mesmo. Por exemplo: um homem vem me procurar já com um diagnóstico psiquiátrico (que ele apresenta como queixa) de uma neurose maníaco-depressiva. Investigando a história da “doença” posso receber informações preciosas, tais como, que os primeiros sintomas surgiram logo após um evento de adultério por parte deste homem, onde os sentimentos de culpa e a reação da esposa lhe causaram profunda depressão, e que, para reagir aos estados de apatia, ele entrava em momentos de hiperatividade (mania), que imobilizava a esposa em sua queixa e descentrava o foco da questão da culpa para a questão da doença (entenda-se que a família toda entrava em pânico quando o homem estava no estado de hiperatividade porque ele fazia coisas “insensatas” do tipo sair de um emprego sólido, vender uma casa ou atolar-se em dívidas).

Desta forma posso entender que o padrão desta doença é circular e repetitivo: o marido faz “coisas insensatas” (como adultério ou dívidas), a esposa o culpa e se distancia dele, ele se recolhe em depressão, ela o trata como um doente/inválido, ele sente-se sufocado e desencadeia um processo de hiperatividade para sair desta posição de ser tratado como doente/inválido, ela sente-se imobilizada e ele volta a fazer “coisas insensatas”. Fecha-se o padrão circular de interação!

Vemos então que o que efetivamente está “doente” é um padrão interacional entre duas pessoas (por conseguinte extensivo a todas suas relações mais íntimas) e que necessita ser entendido em seu processo para que se possa esquadrinhar as intervenções mais eficazes para a interrupção deste “círculo patológico”. Assim não vamos investigar a história do indivíduo atrás de um “fato desencadeador”, tipo um curto-circuito que possa ter desencadeado o incêndio, mas sim procuramos um padrão circular repetitivo que mantém o fogo constantemente aceso.

Esta é uma diferença fundamental entre a psicoterapia breve e as correntes técnicas de “Cura Interior”. Nesta última em geral se levanta a história do indivíduo atrás de UM ELEMENTO desencadeador do problema ou o que se denomina de “TRAUMA EMOCIONAL”. Em geral quando o mesmo é descoberto, são utilizadas uma série de técnicas de sugestão a fim de que o indivíduo se ponha em contato com o momento causador do trauma e o “RE-vivencie” em um ambiente de acolhimento e aceitação, reduzindo assim os danos emocionais provenientes do mesmo.

Na psicoterapia breve, o elemento ‘desencadeador do trauma’ só nos auxilia como referencial do ‘início’ (e coloco isto entre aspas porque mesmo este início é questionável), de um padrão circular de interação que está patológico. O que buscamos é entender este padrão circular, repetitivo, que mantém o sintoma apresentado bastante vivo e presente.

Para a segunda questão levantada – o que constitui a verdadeira queixa do paciente?, temos que ampliar nossa reflexão. Em primeiro lugar creio que no exemplo citado acima fica claro que o sintoma apresentado pelo indivíduo NÃO é a verdadeira queixa. Isso é muito importante, porque nós, seres humanos, somos experts em nos escondermos atrás das palavras. É muito fácil eu me eximir de responsabilidades colocando-me como “doente”, “carente” ou “vítima de uma ‘maldição hereditária’”.

Todavia creio que sou responsável por padrões interacionais doentios que eu ajudo a manter e que geram todo o tipo de sintomas. No exemplo acima, o sintoma era um título psiquiátrico bonito, que inclusive recentemente foi remodelado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para evitar estigmas – não dizemos mais psicose maníaco-depressiva, mas ‘transtorno bipolar de humor’, é mais elegante e não cria preconceitos. Porém a verdadeira queixa embutida neste sintoma era: ‘Não consigo me relacionar de forma saudável com minha esposa’. Aprender a identificar esta queixa é tarefa primordial de todo aquele que quer aventurar-se na arte do aconselhamento.

Vejo, hoje em dia, uma multidão de pessoas buscando saciar sua sede de conhecimentos em manuais de psicopatologia e de auto-ajuda, a fim de ‘identificarem’ suas patologias e resolverem seus problemas. Este é um fator complicador. Na medida em que a psiquiatria popularizou-se, trouxe consigo todas a distorções de interpretação cabíveis quando leigos trabalham com termos técnicos (o mesmo acontece com a teologia). Desta popularização surgem também as simplificações diagnósticas dos conselheiros despreparados e que acabam por causar mais mal que bem.

As pessoas ‘se acomodam’ atrás de títulos psiquiátricos e tentam ‘eximir-se’ de suas responsabilidades. É como se dissessem: “Não me culpe, eu sou depressivo”, ou, “Por favor, me aceite com minha doença, não tenho culpa dela”.

Na verdade todos nós temos elementos mais saudáveis e elementos menos saudáveis em nossa constituição e a forma como permitimos que estes elementos se manifestem em nossos relacionamentos é que farão a diferença. Ou melhor, a forma como os relacionamentos que desenvolvemos irão reforçar ou até cristalizar os elementos menos saudáveis, de forma a gerar ou até aumentar a angústia interior.

Um conceito fundamental da psicoterapia breve é a ‘HOMEOSTASE’, ou seja, a tendência de todo o sistema vivo a buscar um equilíbrio. Quando um sistema (pessoal, familiar ou social) se desorganiza, por qualquer agente desestruturador, imediatamente são acionador mecanismos para que um equilíbrio seja reencontrado. Isso porque os sistemas vivos não suportam muito tempo de desorganização.

Esse re-equilíbrio pode ser encontrado num estágio superior de funcionamento psíquico ou num estágio inferior de funcionamento psíquico. No primeiro caso o que está sendo gerado é crescimento e no segundo caso o que está sendo gerado é patologia. O agente desestruturador pode ser simplesmente a passagem de uma etapa à outra do ciclo vital, como por exemplo, a chegada de um filho ou a entrada na adolescência.

Esse agente desestruturador mobiliza a pessoa ou a família para que busque novos recursos, necessários para enfrentar a novas demandas. Quando a pessoa ou família não consegue mobilizar estes novos recursos e tende a ‘dar um passo atrás’, utilizando-se de ‘velhos hábitos’ para solucionar novas demandas, entendemos que ela estagnou seu processo de crescimento e isso irá gerar dor e angústia subjetiva, resultando em algum tipo de sintoma. Numa linguagem bíblica podemos citar o verso 11 de I Coríntios 13: ‘quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das cousas próprias de menino’.

Nossa vida é um constante processo de crescimento, no qual nos desenvolvemos (chegamos à maturidade) através de constantes mudanças, ou seja, uma eterna tensão entre desequilíbrio e re-equilíbrio, morte e ressurreição: ‘esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão (…) todavia andemos de acordo com o que já alcançamos’. (Filipenses 3:13-16).

Diria, como palavra conclusiva deste estímulo para a reflexão, que a importância da psicoterapia breve está em ajudar as pessoas a encontrarem os recursos para produzirem as mudanças necessárias. O trabalho do terapeuta é o de conseguir acesso a estes recursos e auxiliar o paciente a coloca-los em prática nas áreas apropriadas da vida.

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